70 anos de Elis Regina.

O RP Manaus está sempre interessado em quebrar paradigmas, e dessa vez resolvemos nos perguntar: quem disse que relações públicas também não é cultura?

No dia 17 de março, Elis Regina completaria 70 anos, e a homenagearemos com um texto de autoria do Ygor Olinto Rocha Cavalcante, mestre em História Social da Amazônia (PPGH/UFAM), discente do curso de Especialização em Psicologia Clínica e Psicanálise (PPG/UNIARA) e, obviamente, fã de Elis Regina.

Elis Regina, quem pode decifrar?   Elis Regina

Elis foi uma mulher inteligentíssima, muitas vezes irascível e sempre de língua afiada para qualquer interlocução. Tinha frases espetaculares sobre sua própria personalidade, sobre a sociedade brasileira, as relações humanas, a economia, a política. Enfim, uma mulher versátil e culta. Uma dessas frases guardava algo de profético: “Decifra-me ou te devoro: nunca irão me decifrar”.

Quando parece improvável, lá surge uma nova gravação, um áudio perdido em uma fita qualquer, uma gravação visual feita em algum lugar do estrangeiro, uma entrevista de rádio ou televisionada que é reencontrada. Coletâneas e coletâneas de material “inédito” da pimentinha são, efetivamente, como eram os seus discos: verdadeiras caixas de pandora. Sua produção artística parece uma fonte inesgotável.

Elis, em sua época, era reconhecida pela capacidade de se reinventar. Hoje, apesar de mais de 30 anos de sua morte, redescobrimos aquele potencial inventivo quase que embasbacados: seja pela expressão corporal que suas performances guardam, e os novos vídeos atestam, seja pelos efeitos e modulações na voz que, a cada novo registro encontrado, confirmam um talento impressionante.

Lançando novos compositores, hoje reconhecidos como os principais da MPB, Elis Regina ampliava os espaços de discussão sobre a situação social, política e cultural do país. Seus discos são verdadeiros tratados de História do Brasil, ainda que hermeticamente cifrados, devido à censura da Ditadura Civil-Militar, narrando conflitos e tensões sociais, sonhos acalentados de um país mais justo socialmente, mais atento às suas próprias especificidades culturais e, ao mesmo tempo, mais universalizado.

Afinal, como ela mesma disse em entrevista após o concerto no prestigiado Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, em 1979: “A gente não tem vergonha da Brazuca, não tem vergonha de tocar triangulo e pandeiro. A cabeça da gente não é colonizada”. Ali, Elis foi ovacionada pelo público em sua apresentação individual, depois aclamada na apresentação jam session ao lado de Hermeto Pascoal, e tornada Diva pela imprensa europeia ao ser considerada a “Rainha dos Meios-tons”. Quase uma década antes, Elis já tinha sido bem recepcionada pelo público e mercado europeu. Caetano Veloso costuma afirmar que ela foi a única cantora a universalizar a música brasileira.

De acordo com as classificações, Elis era mezzo-soprano-contralto. Uma extensão vocal imensa. Uma capacidade de projeção de voz que se assemelhava a uma explosão, ou, nas palavras de Gilberto Gil, “como um trovão dentro da mata”. Por outro lado, Elis conseguia cantar com a mesma perfeição repertórios que transitavam por diferentes registros e estilos: samba, bolero, tango, bossa nova, valsa, Samba-Jazz, Jazz, Funk-Disco, Rock-Progressivo, Sertanejo. Consta que ela pretendia gravar um disco com músicas de Heitor Villa-Lobos. Planos de enveredar pela música clássica que foram interrompidos pela morte prematura.

Elis Regina, nascida num bairro operário, filha de um modesto assalariado e de uma dona de casa, sempre fez questão de compreender seu próprio trabalho como uma expressão da luta de uma determinada classe: a trabalhadora. Dizia ser uma espécie de “operária do som”. Por isso, sua obra confunde-se, sem prejuízos estéticos, com sua vida enquanto mulher-cidadã. Liderou associações de músicos, criou órgãos representativos, divulgou no estrangeiro as dificuldades de sua categoria. Enfim, uma mulher de luta.

As “notas” políticas de sua obra ressoam até hoje e são fundamentais para compreender os impasses da sociedade brasileira contemporânea. “Como nossos Pais”, uma crítica mordaz à geração libertária de maio de 1968 que anos depois havia se tornado um tanto cínica e saudosista; “O Bêbado e a Equilibrista”, narrando os penosos anos da Ditadura Civil-Militar; “Redescobrir”, projetando sonhos de, novamente, buscar soluções populares e solidárias para os problemas do país. Apenas alguns exemplos de uma obra profundamente comprometida com seu povo e com o Brasil.

Para além do talento e da inteligência, é inegável que Elis conseguiu, como nenhuma outra cantora, articular diferentes projetos artísticos com uma refinada crítica social e um zelo estético ao longo de sua curta carreira. Não é à toa que Elis ainda é a principal referência para as novas cantoras brasileiras e estrangeiras. E as novas gerações descobrem Elis com entusiasmo. Mesmo porque ela atuava (e ainda atua) como uma espécie de “selo de qualidade”, dizem seus músicos.

Por fim, peço desculpas ao leitor por dois motivos: qualquer texto sobre Elis Regina pecará pelo exagero e pela incompletude. Tanta complexidade em uma mulher de 1,53 cm não nos permite traçar um retrato fiel do que ela foi. Tampouco é possível deixar de sublinhar o talento incomparável daquela que ainda nos surpreende com uma obra sempre inédita e aparentemente inesgotável.

É Elis… Enquanto seu canto for indecifrável, você continuará sendo a 1ª, a 2ª e a 3ª maior cantora do Brasil. E estamos longe, muito longe, de tal desencanto. “Decifra-me ou te devoro?”. Absolutamente devorados. Parabéns.

Por: Samilla Souza.

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