O jornalismo está no cenário mais propício da história

Dante Graça fala sobre jornalismo digital e dá dicas para quem pretende seguir no meio.

Jornalismo digital. O tema, apesar de ser bastante discutido em universidades e entre especialistas, está longe de ter um significado concreto. A editora do Tablóide Britânico The Guardian, Katharine Viner, classifica o novo meio de comunicação como uma ponte entre jornalista e público-alvo.

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Dante Graça, editor executivo do portal A Crítica.

“O jornalismo digital não trata de colocar uma matéria na internet. Trata de uma redefinição fundamental da relação do jornalista com sua audiência, de como pensamos sobre nossos leitores, da percepção que temos de nosso papel na sociedade, de nosso status”, disse.

Editor-executivo do portal A Crítica, Dante Graça segue o mesmo pensamento.
Formado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Dante tem 15 anos de carreira e passagem pelo Diário do Amazonas (onde ficou por quase 14 anos até assumir a chefia do Portal Acritica).

No Diário, começou como repórter cobrindo esportes, cidades, economia, cultura e política. Foi editor do jornal Dez Minutos até assumir, em 2010, o Portal D24AM. Na entrevista para o RP Manaus, Dante Graça falou sobre o novo jornalismo digital e deu dicas para aqueles que pretendem trabalhar no meio.

Hoje nós tempos diversos blogs e portais que abordam assuntos diversos na internet. Como você analisa esse novo meio, o jornalismo digital?

Tem uma situação que é importante pra gente começar a falar nisso, que eu vejo muita gente falando que jornalismo está em crise, mas nunca se consumiu tanta informação no mundo. A partir disso cabe a gente saber trabalhar nesse mercado. O jornalismo que dizem que está em crise, eu acho que ele está no cenário mais propício da história.

Tem uma coisa que adoram falar e que me dá agonia. Falam que o jornalismo tem que reinventar. Eu acredito que o jornalismo não tem que se reinventar, ele tem que ser cada vez mais o que ele sempre foi: passar as informações de interesse público. Só que agora é necessário fazer de uma maneira muito mais rápida (em muitos momentos), e em cima disso a gente tem um grande universo para explorar. Precisamos cada vez mais despir das partes ruins do jornalismo e valorizar as partes boas, aprender a trabalhar nesse universo novo e entender que todo mundo tá passando uma informação o tempo todo.

Todo mundo acha que sabe fazer (jornalismo) mas nos fins das contas a gente sabe que quem tá preparado, quem estudou, quem foi a fundo para saber como passar a informação fomos nós, jornalistas. A gente tem que usar o conhecimento a nosso favor, sair do pedestal que colocaram os jornalistas ao longo dos anos e ser operário da informação.

Em cima do que você disse, sobre esse meio, de que estamos recheados de informação a todo o momento, quais estratégias você acha importante a gente do meio utilizar para passar essa informação de maneira rápida, mas trabalhada?

Por exemplo, eu me lembro de uma matéria que fiz em 2002 de uma manifestação de estudantes. Eles fecharam o terminal e algumas partes do centro. Eu acompanhei tudo por horas e quando a manifestação terminou, às 19h, eu saí do local e fui pra redação ainda fechar a matéria.

Hoje eu aqui mesmo da redação recebo uma ligação dizendo que estão fechando o terminal. Esse ato de fechar o terminal já me rende alguma coisa. Eu já posso fazer um texto dizendo que tem uma manifestação ali e provavelmente o trânsito vai ser desviado por algum momento. Quando eu chegar no local vou começar a ouvir os manifestantes para saber o porque do ato. Já me rende outro texto. Depois, eu continuo cobrindo até onde vai à manifestação, até onde as pessoas vão, já rende uma terceira. E enquanto isso alguém da redação me ajudou e ouviu os responsáveis por atender (ou não) as reivindicações dos manifestantes, já é outra. Então uma história por si só não é mais só uma. Cada vez mais a gente pode explorar cada pedaço daquela história e no final toda ela estará em um só lugar. E, além disso, eu posso ainda fazer um live no facebook do pessoal reclamando.

É um dinamismo diferente que hoje nós podemos dar pra matéria. E depois se eu quiser posso colocar o vídeo junto com a matéria. Então a gente tem que usar a criatividade e explorar cada detalhe porque temos ferramentas.

Com a chegada da internet algumas pessoas dizem que a TV, o Rádio e o Impresso vão perder forças e até acabar. Você tem experiência e viveu essa transição e a vinda da internet, você acha que com a vinda da internet os outros três veículos de comunicação perdem espaço?

Eles precisam pensar numa adaptação pra não morrer. Hoje mais do que nunca só vão ficar os bons. Eu vejo um cenário preocupante no sentido de que muitas pessoas que estão envolvidas nesse mercado não entenderem as medidas que eles precisam tomar pra manter o seu negócio vivo. Se o empresário quer manter seu jornal vivo, ele precisa saber que cada um tem sua peculiaridade e trabalhar dessa maneira. O jornal impresso não pode ser um resumão do que sai na internet no dia anterior. Ele tem que trazer algo mais. E também tem que ter sempre o diálogo entre as redações. Uma coisa que é muito legal aqui é que a gente consegue “bater uma bola” muito boa de não deixar de dar as informações e entender que cada meio (portal e impresso) tem sua dinâmica diferente.

Por exemplo, tem uma matéria muito forte e ela é só nossa e o pessoal terminou de fazer sete da noite, eu não preciso colocar o texto no portal, deixa pro jornal explorar ela e eu vou utilizar em outro horário. E tem que entender as dinâmicas de horários também. Muitas vezes eu tenho uma matéria muito boa à noite que eu posso deixar pra manhã do dia seguinte, ou para um horário perto do meio dia, onde o pessoal está no almoço e mexendo no celular. Então, o mais difícil de tudo isso é entender que cada qual tem sua peculiaridade.

 

É fato que apesar de todos estarem se mantendo, tirando alguns jornais que já fecharam, mas hoje trabalha-se com redações pequenas. Eu não tenho uma redação robusta pro portal. Eu tenho equipe para o portal e também pego o grosso do jornal e sei que todos outros veículos do Brasil são assim também.

Eu preciso mostrar pro meu público que se ele anunciar comigo no site X, ele vai ter muito mais resultado do que pagar uma publicação de 100 reais no facebook. Mas é preciso mostrar e valorizar o meu produto e criar tudo isso que vem agegado.

Te confesso que eu acho a pergunta mais difícil quando me fazem. O jornalismo digital é mutante, está toda hora se adpitando e ningém pode ser o dono da verdade. Vai que volta o que era a ser antes? Vai que o jornal volta a bombar como antigamente.

Até que ponto a internet ajuda ou atrapalha a nossa maneira de passar a informação?

A internet hoje só ajuda. A gente hoje não consegue fazer nada sem a internet. Os diários oficiais e portais de transparência estão na internet..toda aquela investigação que era muito mais complicada de fazer hoje está na palma da nossa mão. Grandes investigações de interesse público consegue fazer na internet, fuçando, então tem que estar se virando.

Eu também posso olhar o site de portais do mundo interio e encontrar formatos de capa de diferente. Uma matéria da Autralia pode me inspirar a fazer algo aqui. Tudo que for conhecimento vai agregar. Se a gente começar a internet ver como vilã, como eu sei que muitos veem, a gente tá indo no passe errado, culpando o mensageiro pela notícia.

Dá para achar uma pauta nas redes sociais? Como você trabalha com isso?

Dá sim. Mas não podemos ser escravos disso. Ajuda muito. Só não podemos perder o olhar do dia a dia. Fora o contato do leitor com a gente aqui. Essa interação com o leito direto é grande, de dez mensagens que eles mandam, três, por exemplo, podem virar matérias muito boas.

A gente vai apurar e tentar confirmar. E depois daí saber se é só eu que tenho essa informação. Se eu vou dá ou não a notícia é outra decisão que vou tomar. Mas eventualmente eu posso segurar.

Como você vê a competição entre os portais entre soltar a notícia primeira?

É o que eu falo pro pessoal: eu nunca vou conseguir dá tudo antes, mas eu tenho que tentar sempre dá tudo antes. Se eu achar normal dá depois que todo mundo, eu to no negócio errado. Caso a gente não consiga, é uma consequência. Nesse caso, a gente avalia porque que não deu, se realmente não dava.

Por exemplo, eu estou há três meses aqui, teve aquele cancelamento do primeiro dia do vestibular da UEA. A gente deu quatro minutos depois de um concorrente. Esses quatro minutos por incrível que pareça vai me fazer muita diferença, porque a nossa principal via de acesso é o facebook, e essa rede social trabalha algoritimos, engajamento etc. O meu concorrente que deu quatro minutos antes, ele pulou minha filha de preferências. O facebook não vai jogar na tua timiline o mesmo assunto. Ele vai ver qual das matérias tem maior engajamento e priorizar a que está bombando mais.

Qual dica você pode dar para o jornalista que quer seguir nesse meio do jornalismo digital?

Eu acho que tem duas cosias que são fundamentais: buscar todas as áreas (impresso, edição de vídeo, portal) e exercitar a criatividade sem medo Se vocês forem seguir essa área, que é tendência no mercado, é necessário aprender tudo e se jogar na ideias. E Quanto menos injessado o jornalismo for o jornalismo que estamos fazendo, mais ele pode render. E se teu chefe dizer não, beleza, faz outra vez. O importante é construir bem uma história.

 

Por Klauson Dutra, acadêmico de Jornalismo.

 

 

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